Introdução
Introdução
Ao redor do mundo, os governos estão sob pressão para entregar mais com menos. As finanças públicas estão apertadas, o escrutínio é intenso, e as expectativas dos cidadãos são maiores do que nunca. Nesse contexto, a tomada de decisões sólidas de investimento não é mais algo "desejável", é essencial. O Modelo de Cinco Casos (FCM), que tive o privilégio de desenvolver e refinar durante minha carreira no Tesouro do Reino Unido e posteriormente em trabalhos de consultoria ao redor do mundo, fornece uma estrutura testada e comprovada para fazer exatamente isso.
Em sua essência, o Modelo de Cinco Casos é sobre fazer as perguntas certas, na hora certa, na ordem certa. Ele oferece uma abordagem prática e estruturada para desenvolver, avaliar e entregar casos de negócio que são robustos, baseados em evidências e alinhados aos objetivos estratégicos. Desde sua criação no Reino Unido, tornou-se o padrão de facto para planejamento de investimento do setor público em vários países. Neste artigo, explicarei o que é o modelo, como funciona, quem o está usando e por que resistiu ao teste do tempo.
O que é o Modelo de Cinco Casos?
O Five Case Model (FCM) é a estrutura de melhores práticas do Governo do Reino Unido para preparar casos de negócio. É o padrão em todo o Whitehall e administrações descentralizadas, incorporado no Green Book do HM Treasury e exigido para todas as principais propostas de gastos.
Em seu cerne estão cinco "casos" inter-relacionados, cada um representando uma dimensão crítica de uma intervenção bem-sucedida:
- Caso Estratégico – Existe um argumento convincente para mudança?
- Caso Econômico – Qual é a opção de melhor custo-benefício?
- Caso Comercial – É possível fechar um acordo?
- Caso Financeiro – A proposta é viável financeiramente?
- Caso de Gestão – A proposta pode ser entregue com sucesso?
Cada caso representa uma lente diferente através da qual a proposta é testada. O modelo garante que as iniciativas não sejam apenas desejáveis em princípio, mas também factíveis, viáveis e realizáveis na prática. É projetado para apoiar a tomada de decisões baseada em evidências ao longo de todo o ciclo de vida do projeto, desde o conceito inicial até a avaliação.
As Origens: Da Política à Prática
O Modelo dos Cinco Casos surgiu no início dos anos 2000, baseando-se em lições de décadas de investimento do setor público, tanto os bons quanto os não tão bons. Buscou abordar desafios persistentes nos gastos públicos:
- Projetos eram frequentemente contratados por capricho político, com pouca reflexão sobre a execução.
- O valor pelo dinheiro raramente era testado rigorosamente.
- Riscos e viabilidade financeira eram considerações secundárias.
- Havia pouca consistência no desenvolvimento de casos de negócio.
Como Chefe de Política de Investimento e Avaliação no CCTA, HM Treasury, trabalhei com colegas para desenvolver uma estrutura prática que instilasse disciplina, transparência e responsabilização no processo de tomada de decisão. O modelo foi construído não a partir da teoria, mas das realidades do governo. Foi moldado através de testes, feedback e iteração em uma variedade de setores, desde transporte e saúde até defesa e digital.
Projetamos o Modelo dos Cinco Casos para ser:
- Simples mas rigoroso – acessível a não especialistas, mas apoiado por técnicas analíticas robustas;
- Iterativo – desenvolvendo-se em três etapas: Caso Estratégico Resumido (SOC), Caso de Negócio Preliminar (OBC) e Caso de Negócio Completo (FBC);
- Modular – capaz de escalar para se adequar ao tamanho e complexidade da proposta;
- Focado nas pessoas – não apenas sobre números, mas sobre clareza, consenso e colaboração.
Como o Modelo Funciona na Prática
1. Caso Estratégico: O Argumento para a Mudança
Esta é a base. Ela responde à pergunta fundamental: Por que estamos fazendo isso? Ela estabelece:
- A justificativa para a intervenção;
- Alinhamento estratégico com prioridades locais, regionais ou nacionais;
- Objetivos claros de gastos;
- Evidência de necessidade e falha de mercado;
- O escopo da proposta.
Este caso deve conquistar corações e mentes. Se não for forte, o resto não importa.
2. Justificativa Econômica: Relação Custo-Benefício
O caso econômico avalia as opções para alcançar os resultados desejados e identifica aquela que oferece o melhor valor social. Isso envolve:
- Elaboração de lista longa e lista curta de opções;
- Uso de análise de custo-benefício ou custo-efetividade;
- Consideração de riscos, viés de otimismo, impactos distributivos e benefícios não quantificáveis.
Este é o coração analítico do modelo, garantindo que os recursos sejam usados com sabedoria.
3. Caso Comercial: Aquisições e Engajamento de Mercado
Este caso avalia se um acordo viável pode ser garantido e mantido. Considera:
- Estratégia de aquisição;
- Transferência de risco e estrutura contratual;
- Interesse e capacidade do fornecedor;
- Dependências comerciais e questões legais.
O foco está em garantir o melhor resultado dos fornecedores enquanto gerencia os riscos adequadamente.
4. Caso Financeiro: Acessibilidade e Financiamento
Isso estabelece se o projeto é viável financeiramente e como será financiado. Inclui:
- Disponibilidade orçamentária;
- Previsões de fluxo de caixa;
- Impacto nos limites de gastos departamentais;
- Implicações contábeis e contingências.
Nenhuma proposta deve prosseguir sem uma estratégia de financiamento clara.
5. Caso de Gestão: Entregabilidade
Por fim, este caso descreve como o projeto será entregue com sucesso. Ele define:
- Governança e garantia;
- Planejamento de projeto e recursos;
- Gestão de riscos e realização de benefícios;
- Arranjos de avaliação.
Garante que a organização tenha a capacidade e o plano para fazer isso acontecer.
Desenvolvimento Faseado: SOC, OBC, FBC
O modelo evolui através de três estágios:
- Caso Estratégico Preliminar (SOC) – estabelece o alinhamento estratégico e define a direção.
- Caso de Negócio Preliminar (OBC) – desenvolve as opções em detalhes e estabelece a estrutura comercial e financeira.
- Caso de Negócio Completo (FBC) – finaliza o acordo, confirma a viabilidade financeira e aprova os planos de execução.
Esta abordagem faseada apoia a tomada de decisões precoces mantendo flexibilidade e controle.
Exemplos do mundo real
Embora tenha origem nas diretrizes do Tesouro do Reino Unido, o Modelo de Cinco Casos tornou-se um padrão internacional.
No Brasil
- HM Treasury exige FCM para todas as propostas de gastos importantes.
- Cabinet Office, Department for Transport, NHS England, e todas as administrações descentralizadas (Escócia, País de Gales, Irlanda do Norte) determinam ou endossam seu uso.
- Está incorporado nos processos de garantia do governo local, especialmente para City Deals, Levelling Up e Combined Authorities.
Internacionalmente
O modelo foi adotado ou adaptado por governos e instituições em todo o mundo:
- Nova Zelândia: O Tesouro adotou formalmente o FCM em seu programa Better Business Cases, com orientações adaptadas para o contexto local.
- Irlanda: O Departamento de Gastos Públicos e Reforma usa uma versão do modelo em seu Código de Gastos Públicos.
- África do Sul, Malásia, e partes da América Latina integraram o FCM em esforços de capacitação apoiados pelo Banco Mundial e OECD.
- Organismos multilaterais incluindo o Banco Mundial, FMI, PNUD, e Banco Asiático de Desenvolvimento baseiam-se no modelo em treinamentos e apoio consultivo.
Seu apelo reside em seu pragmatismo. Diferentemente de muitas estruturas que focam apenas na avaliação econômica ou governança, o FCM conecta intenção estratégica, valor, aquisições, finanças e entrega em uma estrutura coerente.
Benefícios do Modelo de Cinco Casos
O modelo oferece benefícios para múltiplas partes interessadas em todo o cenário do setor público:
1. Para Ministros e Líderes Seniores
- Clareza: Um documento único e estruturado que conta a história completa.
- Garantia: Uma base consistente para análise, decisão e aprovação.
- Alinhamento: Confiança de que as propostas apoiam objetivos estratégicos mais amplos.
2. Para Equipes de Projeto e Analistas
- Orientação: Um roteiro claro para desenvolver casos.
- Integração: Reúne política, economia, finanças, contratação e entrega.
- Credibilidade: As propostas têm maior probabilidade de serem aprovadas e financiadas.
3. Para Cidadãos e Contribuintes
- Transparência: As decisões podem ser explicadas e justificadas.
- Custo-Benefício: Os projetos são selecionados e desenvolvidos com os benefícios em mente.
- Confiança: A sensação de que os recursos públicos estão sendo usados com sabedoria.
4. Para Parceiros Internacionais
- Adaptabilidade: Pode ser adaptado a contextos institucionais locais.
- Desenvolvimento de Capacidades: Promove boa governança e responsabilização.
- Orientação para Resultados: Mantém o foco nos benefícios do mundo real.
Mal-entendidos Comuns
Deixe-me abordar alguns mitos que ocasionalmente surgem.
- "É burocrático." Pelo contrário, o modelo evita marcação de caixinhas ao exigir reflexão real. Feito adequadamente, ele agiliza a tomada de decisões ao prevenir erros custosos mais tarde.
- "É apenas para grandes projetos." O modelo é escalável. Nós o usamos para tudo, desde esquemas de infraestrutura de £1 bilhão até projetos piloto de inovação de £250.000.
- "É apenas sobre conseguir financiamento." FCM não é uma proposta de vendas, é uma ferramenta de apoio à decisão. Deve ser usado para testar, desafiar e refinar ideias, não apenas justificá-las.
Reflexões do Autor
Ao longo de duas décadas, vi o Modelo de Cinco Casos ser usado em todos os cenários imagináveis – para planejar novos hospitais, digitalizar serviços públicos, financiar grandes melhorias ferroviárias e projetar programas de ajuda transfronteiriça. O que aprendi é o seguinte:
- Um bom business case nunca é sobre burocracia, é sobre melhores decisões.
- Os melhores projetos não são aqueles com as apresentações mais polidas, mas aqueles com o raciocínio mais claro.
- O sucesso não está na planilha, mas nas conversas que o modelo promove – sobre propósito, valor e capacidade de entrega.
O Modelo de Cinco Casos não é perfeito. Mas em um mundo onde a confiança pública nas instituições é frágil, e o custo do fracasso é alto, ele oferece uma estrutura para rigor, disciplina e transparência. E isso, na minha opinião, não tem preço.
Considerações Finais
Se você está trabalhando no governo ou com o governo, e quer que sua proposta seja bem-sucedida, use o Modelo de Cinco Casos. Ele não garante aprovação, mas garante que sua ideia será testada de forma minuciosa, justa e consistente. E se ela sobreviver a esse processo, provavelmente vale a pena ser executada.
Para países que buscam desenvolver capacidade de investimento, para departamentos sob escrutínio que precisam demonstrar valor, e para equipes de implementação que se esforçam para implementar mudanças, este modelo entrega resultados.
Mais que uma estrutura, o Modelo de Cinco Casos é uma mentalidade. Uma que diz: gastamos dinheiro público como se fosse nosso próprio. Porque, no fim das contas, é.
Referências
HM Treasury. (2022). The Green Book: Central Government Guidance on Appraisal and Evaluation. Londres: HM Treasury.
New Zealand Treasury. (2021). Better Business Cases Guidance. Wellington: Governo da NZ.
OECD. (2015). Public Investment and Good Governance. Paris: OECD Publishing.
World Bank. (2020). Better Spending for Better Lives: How Latin America and the Caribbean Can Do More with Less. Washington, DC: World Bank.